Crooqui
CROOQUI
Criar meu croqui
Material aberto do Crooqui

Que rocha é essa?

Guia de campo para preencher o item Tipo de rocha do croqui de cânion com segurança: como as rochas se formam, como reconhecê-las dentro do cânion, o que a geologia do Brasil já indica para cada região — e como confirmar de fato qual é, em vez de chutar.

Ir direto para a chave de campo

Publicado pelo Crooqui — a plataforma de croquis de cânion. Livre para ler, imprimir, compartilhar e levar para o campo. Revisão de agosto de 2026, com fontes primárias do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM), SIGEP, ICMBio e propostas de geoparque.

01Por que o tipo de rocha entra no croqui

Não é enfeite acadêmico. A litologia é uma das variáveis que mais explicam o comportamento do cânion — e é a informação do croqui com o maior prazo de validade: ancoragem enferruja, trilha muda, a rocha continua lá.

O que a rocha antecipa

  • Forma da via — degraus regulares, tobogãs polidos, fendas estreitas ou poços encaixados são consequência direta da rocha e do seu fraturamento.
  • Ancoragem — a rocha define se expansão funciona, se é caso de química, que profundidade esperar e quanto tempo o ponto dura.
  • Risco — desprendimento de blocos, marmitas retentoras, sifões e colapsos têm assinatura litológica.
  • Desgaste de corda — arenito grosso e quartzito comem corda e criam sulcos na rocha na recuperação.

O estado da arte lá fora

Vale saber onde o Crooqui está pisando. Entre as bases internacionais consultadas:

  • CanyonLog tem Rock Type como campo estruturado — mas manda o usuário consultar o serviço geológico britânico e não oferece lista fechada nem explica por que importa.
  • Descente-Canyon não tem campo de rocha; a litologia aparece solta no texto de comprometimento, quando aparece.
  • Não localizamos convenção gráfica de simbologia para litologia em croqui — e o próprio guia de croquis do KiwiCanyons admite que ninguém padronizou símbolos.

Ou seja: um campo padronizado, com lista fechada e com direção regional, coloca o croqui brasileiro à frente do que se faz fora.

A regra de ouro deste guia. Escrever "arenito" quando é quartzito, ou "basalto" quando é riolito, é pior do que escrever "não identificado". A informação errada é usada como se fosse certa. Este guia é feito para você chegar ao nome certo — e, quando não chegar, registrar honestamente o nível de confiança.

02Como o cânion se forma — e o que a rocha decide

Um cânion é um vale onde o rio conseguiu cortar para baixo muito mais rápido do que as encostas conseguiram recuar para os lados. Três ingredientes precisam coincidir.

1 · Soerguimento

Algo levantou o terreno (ou baixou o nível de base). O rio ganha energia e passa a escavar verticalmente.

2 · Rocha resistente

A rocha precisa aguentar em pé depois de cortada. Rocha mole demais desmorona e vira vale aberto em V; rocha dura demais e sem fraturas mal é cortada.

3 · Fraqueza orientada

Fraturas, falhas, planos de camada ou foliação dão ao rio um "caminho pré-aberto". É por isso que tantos cânions são retilíneos e seguem uma direção só.

As quatro coisas que a rocha controla no terreno

Propriedade da rochaO que ela produz no cânionOnde você vê isso no Brasil
Anisotropia — a rocha tem "direção" (camadas, foliação) ou é maciça? Camadas geram degraus, patamares e cachoeiras escalonadas. Rocha maciça gera lajes lisas e vales em V muito encaixados. Degraus em arenito da Chapada dos Guimarães × lajedos maciços da Serra do Mar
Padrão de fraturas — famílias de diáclases, disjunção colunar Define a direção do cânion e o tamanho dos blocos que caem. Rocha muito fraturada = mais queda de bloco. Cânions de Capitólio encaixados em fraturas conjugadas; disjunção colunar nos derrames do topo dos Aparados
Solubilidade — a rocha dissolve na água? Carbonáticas criam sifões, sumidouros, ressurgências e cavernas. O cânion pode literalmente entrar em caverna. Bodoquena (MS), PETAR (SP), Ubajara (CE)
Dureza e coesão dos grãos Define se a água esculpe marmitas e tobogãs polidos, e se a rocha aguenta uma ancoragem. Marmitas em quartzito de Veadeiros × arenito friável do Véu de Noiva (MT)
A "janela Goldilocks" das marmitas. O Serviço Geológico de Utah descreve bem: para formar marmita, a rocha precisa ser mole o bastante para ser desgastada por abrasão pelo material em suspensão, mas dura o bastante para manter as paredes verticais. É exatamente essa combinação que produz a marmita reentrante — a que segura o canionista dentro. Tipo de rocha e marmita retentora andam juntos: quem anota um já está descrevendo a condição que produz o outro.

03As famílias de rocha, do jeito que aparecem num cânion

Os três grandes grupos do ensino médio funcionam — desde que você acrescente o que cada um faz debaixo d'água.

Sedimentares

Empilhadas, em camadas

Nascem do acúmulo de grãos (areia, seixo, lama) ou da precipitação química. A marca registrada é a estratificação — linhas horizontais ou cruzadas visíveis a quilômetros de distância.

No cânion: paredões tabulares, degraus onde uma camada dura cobre uma mole, relevo ruiniforme, alvéolos, marmitas. Erosão diferencial é a regra.

Arenito · conglomerado · siltito/folhelho · calcário · dolomito

Ígneas

Resfriadas, cristalizadas

Vieram de magma. Vulcânicas (lava na superfície) resfriaram rápido e ficaram de grão fino; plutônicas (magma em profundidade) resfriaram devagar e têm cristais grandes e visíveis.

No cânion: vulcânicas empilham derrames e trincam em colunas — degraus regulares e blocos prismáticos. Plutônicas dão lajedos maciços, matacões e marmitas fundas.

Basalto · riolito/dacito · granito · sienito · diabásio

Metamórficas

Recozidas sob pressão

Outra rocha transformada por calor e pressão, sem derreter. Ganham foliação (minerais achatados alinhados) ou bandamento (faixas claras e escuras). Costumam ser as mais antigas, mas a dureza varia muito: quartzito e gnaisse estão entre as mais resistentes que existem, enquanto mármore, filito e ardósia são riscados pela faca.

No cânion: a foliação vira plano de fraqueza — lascas, patamares e blocos em placa. O quartzito, que é o caso mais comum no Brasil, dá parede branca vertical e marmita perfeita.

Quartzito · gnaisse · xisto · filito · mármore · metacalcário

Casos especiais

Rochas que ainda estão nascendo

Não cabem bem na divisão clássica e aparecem justamente onde tem cachoeira. Tufa calcária / travertino precipita hoje, sobre musgo e galho, formando barragens e paredes porosas. Canga é crosta de ferro que cimenta o topo de platôs.

Atenção operacional: tufa em crescimento é porosa, leve e quebradiça. Se o paredão da cachoeira é tufa, isso muda tudo sobre ancoragem e precisa estar escrito no croqui.

Tufa/travertino · canga · jaspilito (formação ferrífera)

04Chave de identificação de campo

Responda o que você está vendo. A chave usa só o que dá para fazer dentro do cânion, com o que cabe no bolso. Sempre trabalhe numa superfície fresca — rocha exposta há décadas tem uma casca de alteração que mente.

Antes de bater martelo. A maioria dos cânions brasileiros está dentro de unidade de conservação. Coleta de material geológico em UC exige autorização (SISBIO/ICMBio) e, em muitas UCs e em geossítios protegidos, martelar ou danificar afloramento também é infração — independentemente de haver coleta. Trabalhe com fragmento já solto no leito, fotografe e devolva. Na dúvida: não bata, fotografe. Identificar não é motivo para danificar a via.

05Os testes, um a um — e o kit do croquista

Nenhum teste isolado decide. O nome sai do cruzamento de três ou quatro.

TesteComo fazerO que o resultado significa
Ácido
o mais informativo
Pingue numa superfície fresca, observe de perto e escute. HCl 10% (ácido muriático diluído) é o reagente que funciona de verdade. Vinagre serve só para triagem grosseira: dá reação lenta e discreta em calcário e praticamente nenhuma em dolomito. Efervescência forte na rocha toda → carbonática (calcário, mármore, tufa). Fraca, só ao raspar em pó → dolomito, metacalcário ou rocha com cimento carbonático. Só entre os grãos → o carbonato é o cimento, a rocha é clástica. Só nos veios brancos → preenchimento de fratura. Nada com HCl → elimina o grupo carbonático; nada com vinagre não elimina.
Dureza (risco) Escala prática: unha ≈ 2,5 · moeda de cobre ≈ 3,5 · lâmina de aço e vidro ≈ 5,5 · quartzo = 7. Unha risca → rocha alterada, argilosa ou tufa porosa. Faca risca com facilidade → calcário, siltito, arenito de cimento fraco. Faca não risca e a rocha risca vidro → quartzo dominante: quartzito, arenito silicoso, riolito, chert.
Grão (lupa 10× ou câmera no zoom) Olhe uma fratura fresca. Existem grãos separados? Do mesmo tamanho? Arredondados ou angulosos? Há cristais encaixados? Grãos arredondados soldados = sedimentar clástica. Cristais encaixados sem espaço vazio = ígnea ou metamórfica. Nada visível = vulcânica de grão fino ou pelito.
Estrutura da parede
o mais informativo à distância
Afaste-se e fotografe a parede inteira. Procure: linhas horizontais contínuas, camadas cruzadas em leque, colunas verticais, faixas dobradas, ou ausência total de organização. Camadas planas contínuas → sedimentar. Camadas cruzadas em leque → arenito eólico ou fluvial. Colunas/prismas → vulcânica. Faixas dobradas e onduladas → gnaisse/metamórfica. Sem organização nenhuma → plutônica (granito, sienito).
Martelo (som) Bata de leve e escute. Serve tanto para tipo de rocha quanto para testar bloco antes de ancorar. Som agudo e limpo ("ping") = rocha sã e compacta. Som surdo e abafado ("tôc") = rocha oca, lasca solta ou alterada — não ancore ali.
Peso na mão Compare um fragmento com outro do mesmo tamanho. Anormalmente pesado → basalto, anfibolito, formação ferrífera. Anormalmente leve → tufa, rocha porosa, arenito muito friável.
Água Molhe. A rocha bebe rápido? Fica escorregadia? Absorve rápido → porosa (arenito, tufa, calcário poroso). Absorver água é sinal de alerta para ancoragem de expansão e para perda de resistência.

Kit mínimo — cabe no bolso da neoprene

  • Frasco conta-gotas de 10 ml com HCl 10% (vinagre concentrado só quebra o galho), bem vedado e dentro de saco estanque
  • Lupa 10× de bolso — ou a câmera do celular no zoom máximo, encostada na rocha
  • Canivete de aço e um pedaço de azulejo ou vidro com as bordas fitadas (teste de dureza). Caco solto no bolso da neoprene, não.
  • Ímã pequeno — grude para confirmar magnetita (formação ferrífera, alguns basaltos)
  • Martelo (ou, na falta dele, uma pedra do leito) para o teste de som — mesmo quem não vai identificar rocha precisa dele para testar bloco antes de ancorar
  • Escala na foto: moeda, caneta ou fita métrica. Foto de rocha sem escala é foto perdida.
Ácido e corda não viajam juntos. Ácido — inclusive o vapor dentro da mochila — degrada poliamida e poliéster: corda, fita, cordelete, cadeirinha, mochila. O dano não aparece na inspeção visual. Leve o frasco em saco estanque próprio, num compartimento separado, e lave a mão antes de tocar em qualquer equipamento.

Como fotografar para identificação

  • Três escalas, sempre: a parede inteira · um trecho de 1–2 m mostrando estrutura · o detalhe do grão com escala encostada
  • Fotografe a superfície molhada — a água realça cor, grão e bandamento como um verniz
  • Registre a coordenada da foto. Sem coordenada não dá para cruzar com carta geológica.
  • Fotografe também as fraturas: direção, espaçamento, se são abertas. É o que explica a forma do cânion.
  • Se houver mudança de rocha ao longo da descida — e há, com frequência — fotografe o contato e anote em qual rapel ele acontece.

Vocabulário mínimo

As palavras que você vai encontrar nas fichas de geossítio do SGB e no resto deste guia. Nenhuma delas é essencial para descer o cânion; todas ajudam a ler a fonte oficial.

TermoEm português de canionista
AfloramentoRocha exposta na superfície, sem solo por cima.
Estratificação cruzadaCamadas inclinadas em leque dentro de uma camada maior. Fóssil de duna ou de banco de areia de rio.
FoliaçãoMinerais achatados todos alinhados numa direção — a rocha se parte por ali.
Diáclase / juntaFratura sem deslocamento. É o que orienta o cânion e recorta os blocos.
Disjunção colunarTrincas de resfriamento que dividem a lava em prismas verticais.
Relevo ruiniformePaisagem de torres, arcos e labirintos em arenito, que parece uma cidade em ruínas.
AlvéoloBuraco raso e arredondado escavado na parede, tipo favo. Comum em arenito.
Lapiás (ou karren)Caneluras e sulcos afiados dissolvidos na superfície do calcário.
CarstePaisagem de rocha solúvel: caverna, sumidouro, ressurgência, dolina.
DolinaDepressão fechada; quando é de abatimento, é teto de caverna que desabou.
Marmita (pothole, caldeirão)Poço cilíndrico escavado no leito por vórtice com areia e seixo.
TálusDepósito de blocos acumulados na base da encosta. Indicador de queda de bloco.
SaprólitoRocha alterada até virar quase solo, mas ainda com a estrutura original. Não segura ancoragem.
CuestaEscarpa assimétrica: um lado íngreme, o outro em rampa suave. Ubajara e Guartelá são cuestas.
Erosão diferencialCamadas duras e moles alternadas erodem em ritmos diferentes — é o que faz degrau e patamar.
DescalçamentoA camada mole de baixo recua e deixa a dura de cima em balanço, até cair.
Unidade litoestratigráficaO nome próprio do pacote de rocha (Formação Furnas, Grupo Araxá). É o que o croqui deve trazer.

06Fichas de rocha

Cada ficha traz o que interessa ao croquista: como reconhecer, o que a rocha faz no cânion, o que ela implica para a via e com o que costuma ser confundida. Clique para abrir.

07Guia regional — a geologia do Brasil como ponto de partida

Antes de sair de casa, saiba o que esperar. Busque pelo nome do cânion, da cidade, do parque ou da rocha. confirmado quer dizer que existe fonte primária publicada — ficha do SGB/GEOSSIT, SIGEP, plano de manejo do ICMBio, proposta de geoparque ou artigo técnico. a confirmar quer dizer expectativa regional, sem ficha própria do atrativo. Em ambos os casos a checagem de campo continua sendo sua: mapa regional generaliza, e um cânion de 60 m pode caber inteiro numa camada que o mapa nem representa.

08Confirmar de verdade: o fluxo em quatro passos

Campo dá o tipo de rocha. Carta geológica dá o nome próprio da unidade. Croqui bom tem os dois.

Passo 1 · Pegue a coordenada que você já tem

O croqui já exige coordenada de entrada e de saída. Use a de entrada — é onde começa o paredão.

Passo 2 · Consulte a carta geológica oficial

  • GeoSGB — Litoestratigrafia: consulta textual e gráfica das unidades litoestratigráficas do banco de dados do Serviço Geológico do Brasil (nome da unidade, litologia, idade).
  • GeoPortal SGB: visualizadores de mapa, incluindo o Mapa Geológico do Brasil e os serviços de litoestratigrafia por estado. Dá para clicar no ponto e ler a unidade.
  • Open Data SGB: camadas para baixar e abrir em QGIS — útil se a equipe for mapear muitos cânions.

Passo 3 · Procure ficha de geossítio, que é mais detalhada que o mapa

  • GEOSSIT (SGB) — cadastro nacional de geossítios. Muitos cânions e cachoeiras usados em canionismo já têm ficha com litologia descrita. Busque pelo nome do atrativo ou pelo município.
  • SIGEP — sítios geológicos e paleontológicos do Brasil. Textos mais longos e técnicos; é a melhor fonte para descrever a parede camada por camada.
  • Planos de manejo do ICMBio e propostas de geoparque do SGB — sempre trazem um capítulo de geologia da unidade.

Passo 4 · Cruze com o que você viu

Se o campo diz uma coisa e a carta diz outra, o campo tem prioridade para o tipo de rocha (mapas regionais generalizam; um cânion de 60 m pode estar inteiro dentro de uma camada que o mapa nem representa) — mas registre a divergência no croqui. Isso é informação valiosa, não erro.

Onde as fontes divergem — casos reais que já vimos. Divergência é normal e não invalida nada; só exige que você diga de onde tirou.
  • Cânion do São Francisco (Xingó). Fonte turística diz "arenito"; a ficha do SGB mostra que o rio corta três unidades em sequência — Suíte Xingó (gnaisse), Fm. Tacaratu (arenito) e Suíte Curralinho (granito). Nem "é gnaisse" nem "é arenito" respondem sozinhos: depende do trecho. E há ainda um outro geossítio chamado "Cânion do Talhado", no riacho do Talhado (Delmiro Gouveia/AL), esse sim inteiramente arenítico.
  • Aparados da Serra. É comum ler que o arenito Botucatu forma a base da parede do Itaimbezinho. O SIGEP situa o Botucatu abaixo de ~100 m de cota, no sopé e na planície; a parede de 720–800 m em Cambará do Sul é vulcânica de cima a baixo.
  • Capitólio. A ficha do SGB atribui os Cânions de Furnas ao Grupo Araxá; boa parte da literatura regional e o material turístico dizem Grupo Canastra. A rocha é a mesma (quartzito com xisto), a unidade formal é que diverge.
  • Vale da Lua. Não é quartzito nem granito: é paraconglomerado com matriz carbonática, base do Grupo Paranoá — e é a dissolução desse carbonato que produz as esculturas.
  • Nomes repetidos. "Véu da Noiva" existe na Serra dos Órgãos (gnaisse/granito), na parte baixa do Itatiaia (embasamento gnáissico) e, como "Véu de Noiva", na Chapada dos Guimarães (arenito friável da Fm. Furnas). Três rochas completamente diferentes. Buscar pelo nome do atrativo e importar a litologia é o jeito mais fácil de errar — sempre confira o município.

09Da rocha para a via: o que muda na prática

O que segue é síntese de normas, notas técnicas de fabricante, ensaios publicados e prática de comunidade. Está aqui para orientar o que escrever no croqui — não para substituir formação técnica de equipagem.

Leia isto antes. Nenhuma norma dá tabela de ancoragem por tipo de rocha. A EN 959 ensaia em bloco de concreto padronizado — cuja resistência (~50 N/mm²) um fabricante de ancoragens descreve como "medium to low by rock standards" — e a UIAA 123 remete o ensaio de carga a ela. A UIAA 123 não ignora a rocha: seu Anexo B manda escolher a profundidade de embutimento conforme o tipo de rocha, e o Anexo A registra "Rock type — Unspecified, all rock types could be affected". Só que nenhuma das duas garante desempenho na rocha real. A Petzl, na nota técnica das ancoragens, é explícita: em rocha mole a resistência pode ser reduzida, pode ser necessário usar ancoragem mais longa ou de outro tipo, e realizar ensaios em campo. O croqui informa; quem equipa decide e testa.

Resistência típica à compressão, por litologia

Valores indicativos, compilados por um fabricante de ancoragem química (a página não cita a fonte primária dos números), em N/mm². Não são dado normativo — servem para enxergar a amplitude. E é por causa dessa amplitude que "arenito" e "calcário" não podem ser tratados como categoria única num croqui.

RochaResistência (N/mm²)Leitura prática
Basalto100–300Matriz forte. O problema não é a resistência — é a malha de juntas.
Quartzito150–300Das melhores. Come broca e come corda.
Granito100–250Excelente quando são. Alterado, cai para a categoria "rocha mole".
Mármore100–250Compacto, mas escorregadio e solúvel.
Calcário30–250Amplitude enorme. Porosidade e carstificação mudam tudo.
Ardósia100–200Forte perpendicularmente à foliação, fraca paralelamente a ela.
Arenito20–170Do quase-quartzito ao que esfarela na mão.
Folhelho / siltito5–100Não sustenta ancoragem. Só aparece em cânion como camada mole sob uma camada dura.
(concreto, para referência)14–42O bloco de ensaio da norma é mais fraco que a maioria das rochas — e mais forte que arenito ruim.

Rocha dura, sã e maciça

Granito são, gnaisse, quartzito, basalto compacto. Expansão funciona bem; química também. Tolera ponto mais próximo de aresta.

Ressalva: granito com esfoliação em lascas e basalto colunar entram na categoria seguinte, mesmo sendo duros — o que manda é a fratura, não a dureza.

Rocha mole ou porosa

Arenito não silicoso, calcário poroso, tufa, granito alterado, saprólito. O consenso na literatura de escalada em rocha mole é não usar expansão: a rocha esmaga no ponto de expansão e o torque não pode ser aplicado.

Ensaios em arenito mole mostram capacidades muito abaixo do previsto pelos modelos de cálculo — e apontam para química, embutimento maior e furo mais largo que a haste.

Rocha estratificada ou foliada

Xisto, filito, ardósia, calcário bem estratificado, arenito em camadas finas. Ancoragem mecânica tende a promover fissuração ao longo do plano de fraqueza; química atravessa e amarra várias camadas.

Nunca ancore paralelamente à foliação, dentro de uma lasca.

Conglomerado

Caso próprio: ensaios publicados mostram que 80 mm de embutimento falharam abaixo de 10 kN e que foi preciso chegar a 150 mm para desempenho confiável. E a ancoragem precisa atravessar os seixos para dentro da matriz — nunca ancorar num seixo isolado, que pode simplesmente sair inteiro.

Corrosão — o que a rocha e o ambiente fazem com o ponto

Rocha, corda e aderência

Risco de queda de bloco, por litologia

LitologiaMecanismo dominante
Basalto colunarCada coluna é um prisma já delimitado por juntas em todas as faces laterais. A porção de colunas regulares (colonnade) dá degraus; a porção irregular (entablature) dá blocos menores e mais soltos.
Xisto, filito, ardósiaFoliação é plano de fraqueza pré-existente. Lascas em placa, que soltam com gelo, chuva e raiz.
Arenito sobre camada moleDescalçamento da base → queda em bloco. É o motor do recuo das escarpas em toda a Bacia do Paraná e do Parnaíba.
Carste (calcário, dolomito)Dissolução, colapso de teto, sumidouros e sifões. O cânion pode entrar em conduto.
Granito alterado / saprólitoTrata-se como rocha mole, independentemente de o mapa dizer "granito".
Qualquer uma, muito fraturadaO grau de fraturamento manda mais que a resistência da matriz. Cone de tálus e encosta coberta de blocos na base são indicadores de perigo alto.
Posição do ponto. A norma de equipagem de cânion das federações francesas de espeleologia e de montanhismo (FFS/FFME) pede que os pontos estejam o mais abrigados possível dos efeitos de cheia ou de queda de pedras — ou seja, queda de pedra é critério de posicionamento de ancoragem, não só de progressão. E em zona de fluxo, pontos não ligados por corrente ou fita são preferíveis: corrente e fita prendem detrito e tronco.

10Como preencher o campo no croqui

Padronizar o texto é o que permite, mais tarde, filtrar e comparar cânions por rocha.

Formato proposto

Rocha principal (classe) · Unidade geológica · confiança · fonte

Exemplos bons:

  • Quartzito (metamórfica) · Grupo Araxá · confirmado · SGB/GEOSSIT
  • Basalto (ígnea vulcânica), com riodacito no terço superior · Fm. Serra Geral · confirmado · SIGEP sítio 050
  • Arenito (sedimentar) · Fm. Furnas · provável · carta geológica + observação de campo
  • Gnaisse (metamórfica) · a confirmar · observação de campo apenas

Exemplos ruins: pedra · rocha dura · basáltica (achei parecida com o Itaimbezinho) · arenito num cânion onde você não testou nada e o mapa diz gnaisse.

Nível de confiança — o seu, não o do guia

Estes três níveis são sobre o seu croqui e não sobre os selos do guia regional (que dizem apenas se existe fonte primária publicada para aquela região). Aqui o que conta é o que você fez.

confirmado

Carta geológica, ficha de geossítio, plano de manejo ou publicação técnica e observação de campo compatível. Cite a fonte.

provável

Uma das duas pernas apenas — ou campo consistente sem carta, ou carta sem checagem no campo.

a confirmar

Impressão visual, ou fontes divergentes. Escrever isso é melhor do que escrever um nome errado.

Anotações complementares que valem ouro para quem repete

11Checklist de campo

Para imprimir ou abrir no celular na hora de descer. Marque conforme faz.

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Este guia é do Crooqui

Fizemos este material porque Tipo de rocha é um item obrigatório do croqui — e porque ninguém deveria ter que chutar. É aberto: use, imprima, mande para a sua equipe. Se quiser desenhar o croqui inteiro, o Crooqui faz o resto: simbologia padronizada, cotação francesa sugerida pelo próprio croqui, colaboração e exportação em A3.

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